Olho de Ferro

Adriano Machado

Mão fina.
Comunhão com o fogo.
Um tempo de noites sufocantes.
O peso de um martelo batendo sobre a cabeça.
Narinas em brasa como um maçarico aceso.
Ruir com um vento torto.
Infestado pelo som grave de uma respiração que queima.
O corpo suspenso em febres oscilantes.
E o medo sentado no sofá da sala, fazendo quarentena, como se um fim espreitasse no caminho entre a porta e o corredor do banheiro.
Mas as marcas do acúmulo de décadas de aço queimado sobre concreto não estão ali em vão.
Nesse território, vejo o escorrer azulado do óleo pelo chão e decido que tudo o que meu olho atinge é a pele do meu pai, são seus olhos escamados de luz.
Recorro ao que ele inventa, o que sobra de sua mão.
Quando tento imitar seu gesto, vacilo, e sinto a carne ser aberta.
Lembro que o nosso sangue é o mesmo. Uma linha reta se abre no meu corpo e na mente.
E espero, impaciente, que seu corpo sobrepunha o medo e a morte, reorganize por si mesmo a vida e resista.
Finalmente, esse dia chega, seu corpo respira ares renovados e sente os sabores que o mundo lhe permite.
As marcas de um corte do metal afiado continuam cicatrizando.
E eu também as carrego agora.

Adriano Machado I 2020
Orientador I Pedro David