Nhá Nhá

Alexandre Baxter & Niura Bellavinha I Brasil

Em cidades mineiras – desocupadas pela ação violenta e abusiva de mineradoras – nas paisagens quase desérticas, atravessadas pela destruição e pela poeira densa, elementos etéreos, como ar e luz, ganham peso e, em sua dinâmica, a materialidade de uma pintura efêmera e trágica, formada nas latências do próprio tempo que, ainda assim, passa.

In some towns of Minas Gerais State, Brazil – unoccupied by the violent and abusive action of mining companies – in the almost desert landscapes, crossed by destruction and dense dust, ethereal elements such as air and light gain weight. In their dynamics, the materiality of an ephemeral and tragic painting, formed in the latencies of the very time that still passes.

Seeds of resistenceI Sementes da Resistencia

Pablo Avarenga I Uruguai

No mesmo ano em que Albarenga inicia seu projeto, em 2018, um relatório da organização de direitos humanos Global Witnesses estabeleceu que, em 2017, pelo menos 201 defensores da terra e ambiente em todo o mundo perderam suas vidas enquanto protegiam suas comunidades e regiões da devastação da mineração, agronegócio, extração de madeira e outras indústrias ambientalmente devastadoras. A maioria das mortes ocorreu na América Latina e somente no Brasil foram assassinados 57 defensores, 80% deles mortos enquanto defendiam uma parte da floresta amazônica. Apesar dessa situação alarmante, as comunidades tradicionais da América Latina não se intimidam e continuam a proteger seu território contra projetos de desenvolvimento que exploram os recursos naturais de uma região sem levar em consideração sua história ou cultura. As populações tradicionais, recusam-se a abandonar suas terras sagradas onde viveram gerações e estão ali enterrados seus ancestrais, mesmo depois de sua grande destruição. Este ensaio fotográfico busca iluminar a poderosa conexão entre os defensores da terra e os territórios que eles defendem de forma tão feroz. “Eles [os fazendeiros] acham que a solução é nos enterrar, mas não perceberam que somos sementes.”

In 2018, the year I began this photographic project, a report established that during 2017 at least 201 land and environmental defenders worldwide lost their lives while protecting their communities and regions from the ravages of mining, agribusiness, logging, and other environmentally devastating industries. According to the human rights and environmental organization Global Witness, the majority of the deaths were in Latin America, where 57 defenders perished in Brazil alone, 80 percent of them killed for defending a part of the Amazon rainforest. Despite this alarming situation, the traditional communities of Latin America are undaunted and continue to protect their territory against development projects that exploit a region’s natural resources without consideration for its history or culture. Traditional populations, bound to the sacred land where generations of their ancestors lived and are buried, refuse to abandon it, even after it has been largely destroyed. This photo essay seeks to illuminate the powerful connection between land defenders and the territories they so fiercely champion. “They [the ranchers] think the solution is to bury us, but they didn’t realize that we are seeds”. [Albarega]

Nantu é um jovem indígena da Nação Achuar, do Equador, que lidera um projeto de barcos fluviais movidos a energia solar para transporte coletivo. Ao instalar painéis solares no teto de um barco especialmente projetado, ele trabalha para acabar com a dependência de Achuar da gasolina. À esquerda: em suas terras, Nantu está deitado vestido com as tradicionais roupas Achuar. À direita: a floresta tropical intocada do território Achuar que Nantu quer proteger.

Nantu is an indigenous young man from the Achuar Nation of Ecuador who leads a project of solar-powered river boats for collective transport. By installing solar panels on a specially designed boat’s roof, he has been working to end Achuar’s dependence on petrol. Left: On his land, Nantu is lying down dressed with traditional Achuar clothing. Right: the pristine rainforest from the Achuar territory that Nantu wants to protect.

Drica é a primeira mulher eleita coordenadora do território quilombola e representa as cinco comunidades que vivem na Amazônia brasileira. O primeiro desafio que essas comunidades enfrentam são os madeireiros ansiosos para fazer acordos com a comunidade. O segundo é uma mina de bauxita rio abaixo: os mineradores constroem barragens que estão colocando em risco todo o rio Trombetas. Mas, para Drica, o maior desafio de todos é um grande projeto de barragem hidrelétrica que provavelmente receberá luz verde do governo e que não só destruirá o meio ambiente, mas também deslocará as comunidades de sua terra natal. À direita: Drica deitada em sua terra ancestral. À esquerda: vista aérea da mina de bauxita do rio Norte, próxima ao território de Drica.

Drica is the first woman to have been elected as Quilombola Territory Coordinator and she represents the five communities living in the Brazilian Amazon. The first challenge these communities face is loggers eager to strike deals with the community. A second challenge is a Bauxite mine down the river: it has been building dams which are putting the entire Trombetas River at risk. But for Drica the greatest challenge of all is a huge hydroelectric dam project which will probably be green-lighted by the government and which will not only destroy the river environment but also displace the communities from their homeland. Right: Drica lying down on her ancestral land. Left: Aerial view of the Rio Norte Bauxite Mine next to Drica’s territory.

Tupí tornou-se a primeira mulher em sua aldeia a afirmar que havia enfrentado violência contra a mulher. Esse foi o primeiro passo para encarar a questão da violência de gênero em sua aldeia, às margens do rio Tapajós, na Amazônia brasileira. Como uma mulher indígena Tupinambá, ela incentivou outras mulheres indígenas a contar suas histórias e combater a violência de gênero. Dessa forma, Tupí lidera um grupo de apoio às mulheres, para ajudá-las no processo de enfrentamento da violência. À direita: Tupí em sua aldeia natal. À esquerda: o território que Tupí defende: seu corpo e os corpos das mulheres indígenas.

Tupí has become the first woman in her village to assert that she had faced violence against woman. That was the first step to address the issue of gender violence in her village, next to the Tapajós river, in the Brazilian Amazon. As an indigenous Tupinamba woman she has encouraged other indigenous women to tell their stories and fight gender violence. This way, Tupí leads a women’s support group to help women go through the process of addressing violence against them. Right: Tupí in her home village. Left: The territory that Tupí defends: her body and indigenous women bodies.

Julian é um indígena da nação Achuar, do Equador. Ele luta coletivamente para proteger sua comunidade das consequências de uma nova estrada que entra no território Achuar, entre outras ameaças, como o desmatamento, que já afeta seus vizinhos indígenas Shuar. À direita: Juliano deitado em sua sagrada terra indígena. À esquerda: vista aérea da nova estrada que entra no território Achuar.

Julian is an indigenous man from the Achuar Nation of Ecuador. He fights collectively to protect his community from the consequences of a new road entering the Achuar territory, among other threats such as deforestation, which is already affecting his fellow indigenous Shuar neighbors. Right: Julian lying down on his sacred indigenous land. Left: An aerial view of the new road entering the Achuar territory.

Dani é uma ativista LGBT da comunidade Prainha II, no rio Tapajós, que luta pelo seu reconhecimento LGBT e também pela defesa de seu território contra a expansão do agronegócio. A reserva natural onde mora é cercada por plantações de soja. À esquerda: um dos campos de soja próximo ao território de Dani. Meio: Dani deitada em seu território. Campos. À direita: o limite entre a floresta tropical onde vive Dani e a plantação de soja.

Dani is an LGBT activist from the Prainha II community, on the Tapajós river who fights for her LGBT recognition and also to defend their territory from agribusiness expansion. The natural reserve where she lives is surrounded by soybean fields. Left: One of the soybean fields next to Dani’s territory. Middle: Dani laying on her territory fields. Right: The limit between the rainforest where Dani lives and the soybean.

59 Retratos da Juventude Negra Brasileira I 59 Por- traits of Black Brazilian Youth

Edu Simões I Brasil

O Brasil está entre os países mais violentos do mundo e tal brutalidade tem vítimas com idade, cor e endereço. Os mais atingidos são os jovens negros moradores das favelas e periferias das grandes cidades brasileiras. Para abordar essa realidade assombrosa, na qual 59 jovens negros são assassinados todos os dias, Simões retrata a juventude negra brasileira em seu dia a dia, em casa e lugares onde trabalham e se divertem. Pessoas com nome, endereços, desejos, sonhos de futuro  colocando-se firmemente diante da câmera e de todos nós.

Brazil is among the most violent countries in the world and this violence has an age, color, and address. The hardest hit by this violence are the young black population living in the favelas and suburbs of large Brazilian cities. To address this astonishing reality, where 59 young people of color are murdered every day, Simões portrays Brazilian black youth in their daily lives, at home, places where they work and play. People with a name, address, wishes, dreams of the future, and, above all, all of them staring steadily at the camera and all of us.

History after apartheid I História depois do apartheid

Haroon Gunn-Salie I África do Sul

A série de litografias de Gunn-Salie aborda o uso pelas forças de segurança do apartheid de tinta roxa dispensada por canhões de água sobre veículos blindados para marcar, identificar e prender os manifestantes que participam de marchas e manifestações pela democracia em massa. Esta imagem de pessoas manchadas de roxo fugindo da polícia tornou-se iconográfica do movimento de libertação contra o apartheid. Um evento simbólico próximo ao fim da segregação foi o Purple Rain Protest em 2 de setembro de 1989, na Cidade do Cabo. O primeiro canhão d’água montado em um caminhão foi usado para controle de distúrbios (manifestações/motins) na Alemanha nazista, no início da década de 1930. As forças de segurança do apartheid apropriaram-se dessa técnica adicionando corante a água, e imagens de manifestantes saturados e marcados pelas cores dos canhões existem em todo o sul global hoje. Na Índia, utilizaram tinta roxa como na África do Sul. A polícia de Uganda marcou os líderes da oposição que protestavam de rosa luminoso; a polícia húngara utilizou uma combinação de azul e verde para dispersar uma manifestação pró-socialista no centro de Budapeste; na capital da Turquia, Ancara, os professores que marchavam sob a bandeira da “educação secular e respeito pelo trabalho” foram jateados de cor amarela pela força de segurança; a polícia israelense usou azul cerúleo brilhante para identificar atiradores de pedra palestinos em Bil’in; e na Coreia do Sul os manifestantes que marchavam contra a visita do presidente dos Estados Unidos, George W Bush, a Seul foram iluminados com um tom laranja antes de serem carregados em massa por veículos da polícia.

History after apartheid is a major installation, a body of two-colour lithographic prints, and a film. The work addresses the apartheid security forces’ use of purple dye dispensed from water cannons on armored vehicles to mark protesters attending mass democracy marches and demonstrations, to identify and arrest those in attendance. This image of purple-stained people fleeing police has become iconographic of the mass liberation movement against apartheid. A symbolical event towards the end of apartheid was the “Purple Rain Protest” on 2nd September of 1989 in Cape Town. As the march approached South Africa’s Parliament, a police water cannon with purple dye hosed thousands of Mass Democratic Movement supporters. The first truck-mounted water cannon was used for riot control in Nazi Germany at the beginning of the 1930s. The apartheid security forces re-appropriated this technique adding dye to the water stream and similar images of saturated indelibly marked protestors exist throughout the global-south today. In India, pro-democracy protesters were blasted with purple dye as in apartheid South Africa; Ugandan police marked opposition leaders who were protesting in luminous pink; the Hungarian police used a combination of blue and green to disperse a pro-socialist demonstration in central Budapest; in the Turkish capital, Ankara, teachers who marched under the banner of “Secular education and respect for work” were colored bright yellow by the security forces. Israeli police used bright cerulean blue to identify Palestinian stone-throwers in Bil’in, and in South Korea protesters who marched against US President George W. Bush’s visit to Seoul were illuminated in an orange hue before being carried off in police vehicles en-masse.

Declaration of empathy I Declaração de Empatia

Sandeep TK I Índia

Na India, os Hijras, independente de sua casta, são empurrados para um canto claustrofóbico da sociedade e não são aceitos nem por suas próprias famílias, com vergonha de chamá-los de seus. É a essas pessoas que este projeto fotográfico é dedicado, celebrando sua dignidade, garra e admirável entusiasmo pela vida. Sandeep, é uma delas, um jovem Queer que cresceu em Kerala, India. Declaração de Empatia articula-se a partir de um gesto simples do artista que convida outras pessoas da comunidade Hijra para participar do projeto. Pessoas que, como ele, vivenciam essa exclusão, as dificuldades de sobreviver, estudar e trabalhar num ambiente social de absoluta opressão. O convite feito pelo atista foi o de se imaginar em uma outra vida, aquela que poderia ter alcançado não fosse a discriminação social que confina suas escolhas e possibilidades de futuro. Sandeep dá ver uma cena de cada uma dessas outras vidas, cenas performadas pelos participantes como um instantâneo, cuidadosamente construído como uma fotografia vernacular de um álbum de família.

In India, the Hijras, regardless of their caste, are pushed into a claustrophobic corner of society, not even accepted by their own families, who are ashamed to call them their own. It is to these people that this photographic project is dedicated, celebrating their dignity, determination, and admirable enthusiasm for life. Sandeep, is one of them, a young Queer who grew up in Kerala, India. “Declaration of Empathy” is articulated based on a simple gesture by the artist that invites others from the Hijra community to participate in the project. People who, like him, experience this exclusion, the difficulties of surviving, studying, and working in a social environment of absolute oppression. The invitation is “to imagine yourself in another life”, the one you could have achieved, had it not been for the social discrimination that confines your choices and possibilities for the future. Sandeep gives us a view of each of these ‘other lives’, scenes performed by the participants as a snapshot, carefully constructed like a vernacular photograph from a family album.

Sherlin acredita fortemente no comunismo em Kerala e ela admira os líderes comunistas. Sherlin quer trabalhar entre os oprimidos e as pessoas de sua própria comunidade. E ela acredita que o comunismo é a maneira de mudar o mundo.

Sherlin is a strong believer of communism in Kerala and she admires the communist leaders, Sherlin wants to work among the downtrodden and people in her own community And she believes communism is the way to change the world.

Abhi aka Annamma se apaixonou por um homem aos 17 anos, e decidiu morar com ele, nessa mesma época ele voltou para casa, a família era hostil e inaceitável. Ele se mudou de casa, depois de algumas semanas ele voltou para sua família quando sua mãe estava doente. Sua avó desejava que ele se tornasse um sacerdote na Igreja, ele ingressou no seminário e permaneceu na igreja por 4 meses, mas decidiu parar e se tornar Annamma. Esta fotografia foi tirada perto do túmulo de sua avó.

Abhi aka Annamma fell in love with a man when he was 17, and decided to live with him, that was the same time he came out at home, the family was hostile and unaccepting. He moved out of his house, after a few weeks he came back to his family when his mother was ill. His grandmother wished him to become a priest in the Church, he joined a seminary and stayed in the church for 4 months but decided to stop and become Annamma. This photograph is taken near the tomb of his grandmother.

Siddharth Sathya Siddharth é um homem trans, agora morando com sua namorada, é difícil para ele encontrar um lugar para ficar junto. Siddharth acredita a pessoa precisa estar em uma posição de poder e de fazer mudanças.

Siddharth Sathya Siddharth is a transman, now living together with his girlfriend, it is hard for him to find a place to stay together. Siddharth believes you have to be in a position to hold power, and to make changes.

Miya Sivaram é a segunda filha de seus pais, sendo um menino, ela tinha a responsabilidade de cuidar da família, ela começou a trabalhar em diferentes lugares para ajudar a família e ela contribuiu para o casamento de sua irmã. Após o casamento de sua irmã, ela desapareceu de Kerala para Tamil Nadu, para ser sincera com seu sentimento de se tornar uma mulher e para encontrar um homem que pudesse amá-la. Aos 23 anos, ela fez uma operação de mudança de sexo para se tornar Miya. “Eu gostaria de ser advogado depois de experimentar a discriminação e o bullying que enfrentei na minha vida.” Disse Miya

Miya Sivaram is the second child to her parents, being a boy, she had the responsibility of taking care of the family, she started working in different places to help the family and she contributed for her sister’s marriage. After her sister’s marriage she disappeared from Kerala to Tamil Nadu, to be truthful to her feeling of becoming a woman and to find a man who could love her. At the age 23 she had a sex change operation to became Miya. “I wish I was a lawyer after experiencing the discrimination and bullying I faced in my life.” Said Miya

Shine Heroes I Heróis do Brilho

Federico Estol I Uruguai

Três mil engraxates saem diariamente pelas ruas dos subúrbios de La Paz e El Alto, em busca de clientes. Eles são de todas as idades e, nos últimos anos, tornaram-se um fenômeno social na capital boliviana. O projeto Shine Heroes foi realizado ao longo de três anos, envolvendo a colaboração de sessenta engraxates, associados à ONG Hormigón Armado, planejando juntos narrativas e cenas em histórias em quadrinhos, jornais e zines. A profissão enfrenta forte discriminação, a tal ponto que os engraxates usam máscaras de esqui para não serem reconhecidos. Assim, em seus bairros e escolas, ninguém sabe o que  fazem profissionalmente e  mesmo suas famílias acreditam que eles têm um ofício diferente. A máscara os torna invisíveis e, ao mesmo tempo, os une num anonimato coletivo que figura uma tribo, uma identidade e uma força de resistência à exclusão. Federico, no trabalho que realiza coletivamente com esses grupos, transforma essas personalidades ocultas e impactadas pela discriminação em figuras heroicas, que lutam para trazer beleza e bem-estar à sociedade, mesmo que não sejam compreendidos por ela.

3000 shoe shiners go out into the streets of La Paz and El Alto suburbs each day searching for clients. They are of all ages and in recent years have become a social phenomenon in the Bolivian capital. What characterizes this tribe is the use of ski masks so those around them will not recognize them. They confront the discrimination they face through these masks; in their neighborhoods no one knows that they work as shoe shiners, at school, they hide this fact, and even their own families believe they have a different job when they head down to the center of the city from El Alto. The mask is their strongest identity, which makes them invisible while at the same time unites them. This collective anonymity makes them tougher when facing the rest of society and is their resistance against the exclusion they suffer because they carry out this work. For three years, I have been collaborating with sixty shoe shiners associated with the NGO “Hormigón Armado”. We planned together the scenes during a series of graphic novels workshops, incorporating the local elements of the urbanity of El Alto and producing photographic sessions with them as co-authors of a photo essay to fight against their social discrimination. [Estol]