Worlds in the making I Mundos em construção

Nicolas Henry I França

O projeto Worlds in the making” fala sobre um lugar e as pessoas contando suas histórias. Imagens que figuram experiências coletivas e eventos significativos para comunidades que testemunham acontecimentos locais por meio de um processo criativo de colaboração. Em cada lugar, o artista promove trocas com os moradores para construir imagens fotográficas coletivas a partir das histórias relatadas. O artista dá atenção especial a anedotas pessoais, sonhos ou ira coletiva, dificuldades rotineiras ou iniciativas transformadoras. Para produção dessas imagens icônicas, são elaborados cenários e encenações  ̶ engenhocas gigantes ̶ construídos artesanalmente com membros da comunidade. Uma atividade intensa é estabelecida em que cada um faz a sua parte, somando esforços e interligando as habilidades especiais de cada um. Tudo se torna essencial para construir essas engenhocas que dão corpo à história a ser performada para o público local e para a câmera de Henry, como um grande teatro que será fotografado. Chegada a hora, percebe-se o zumbido de um evento prestes a acontecer. Cada cena do quadro é iluminada sucessivamente, contando gradativamente a narrativa. A comunidade vê desenrolar-se, diante dos olhos, sua história, dita por suas próprias palavras, experiência capaz de alimentar uma nova consciência e talvez, uma certa forma de resiliência.

The “Worlds In The Making” project is about a place and people telling their stories. Images depicting collective experiences and significant events for communities that share local stories through a creative process of collaboration. In each place, the artist promotes exchanges with residents to build collective photographic images. Nicolas Henry pays special attention to personal anecdotes, dreams or collective wrath, daily difficulties or transformational initiatives, weaving a universe around a story he has been told and proposes his resolution in crafted form. For the production of these iconic images, scenarios and staging are created – “giant sculptures” – built by hand with members of the community. Intense activity is established where each one does his part, adding efforts, and connecting the special abilities of everyone. Everything becomes essential to build the “stage-like sculptures” that embody the story to be performed for the local audience and for Henry’s camera, like a big theater that will be photographed. When the time comes, the buzz of an event is about to happen. Each scene in the picture is lit successively, gradually narrating the story. The community sees its story unfolding before the eyes, narrated in its own words, perhaps an experience capable of fostering a new awareness and perhaps, a certain form of resilience.

Tell Tale I Contar Contos

Lebohang Kganye I África do Sul

Tell tale explora narrativas sobre a vida e a obra da artista Helen Martins, que viveu e trabalhou na aldeia rural de Nieu Bethesda, em Karoo, África do Sul, transformando sua própria casa, ao longo de mais de três décadas, em um mundo fantástico, uma obra única, a “The Owe House”, com mais de 300 esculturas de animais. Em sua pesquisa, Kganye acolhe fontes e “lugares de fala” diferentes. Inspira-se tanto em passagens da dramaturgia e da literatura sul-africanas que abordam a vida de Martins – The Ttrain driver e Road to Mecca, do renomado dramaturgo Athol Fugard, bem como Maverick, de Lauren Beukes e Nechama Brodie –, quanto em narrativas orais, recolhidas junto aos moradores de Nieu Bethesda, onde a artista viveu e construiu sua obra. Kganye remonta essas estórias em estruturas cênicas em miniatura, compostas por camadas de figuras em silhueta, recortadas à mão, nas quais cada cena é acompanhada de uma frase que evoca um acontecimento da vida de Martins. Narrativas que remontam dos anos 1940 aos dias de hoje, aproximando ficcionalização, experiência, lembrança, figurando os laços que unem os habitantes da região às suas verdades, ficções e mitologias coletivas.

“Tell Tale” explores narratives about the life and work of artist Helen Martins, who lived and worked in the rural village of Nieu Bethesda in Karoo, South Africa, transforming her own home, over more than three decades, into a fantastic world, a unique work, “The Owl House”, with more than 300 animal sculptures. In her research, Kganye welcomes different sources and “places of speech”. It is inspired both by passages in South African dramaturgy and literature that address Martins’ life – ‘The Train Driver’ and ‘Road to Mecca’, by renowned playwright Athol Fugard, as well as’ Maverick ‘by Lauren Beukes and Nechama Brodie – as well as oral narratives, collected from the residents of Nieu Bethesda, where the artist lived and built her work. Kganye goes back to these stories in miniature scenic structures, composed of layers of figures in silhouette, cut out by hand, where each scene is accompanied by a phrase that evokes an event in Martins’ life. Narratives that date from the 40s until today, bringing fictionalization, experience, memory closer together, figuring the bonds that unite the inhabitants of the region to their collective truths, fictions, and mythologies.

Cimarrón I

Charles Fréger I França

Cimarrón é a terceira parte de uma série fotográfica iniciada em 2013, por Charles Fréger, e dedicada à pesquisa sobre as populações africanas que resistiram à escravidão nas américas, conhecidas originalmente como Maroons. Quando fugiam de seus captores, formavam assentamentos independentes nas selvas e montanhas caribenhas, onde se protegiam e muitas vezes uniam-se aos indígenas locais. Em um espaço que se estende do sul dos Estados Unidos ao Brasil e abrange dezesseis países., Féger fotografa práticas culturais tradicionais mantidas principalmente por descendentes de africanos escravizados, celebrando a memória de seus pares, suas identidades e modos de ser.

Cimarrón is the third part of a photographic series started in 2013 by Charles Fréger and dedicated to research on the African populations that have risen against slavery in the Americas, originally known as Maroons. Managing to escape from their captors, they formed independent settlements in the Caribbean jungles and mountains where they protected themselves and often joined the local indigenous tribes. In a geographical space that stretches from the southern United States to Brazil and covers sixteen countries, Féger photographs traditional cultural practices maintained mainly by descendants of enslaved Africans, celebrating the memory of their peers, their identities and ways of being.

Nowruz Sayadeen I Ano Novo do Pescador

Huda Abdulmughni I Kuwait

Durante o calor escaldante do verão na Ilha Qeshm, no Golfo Pérsico, a vila de Salakh é dominada pelas celebrações do Nowruz Sayadeen, o Ano Novo do Pescador. Toda a pesca – um símbolo do sustento da aldeia – é suspensa, e a comunidade celebra, pura e simplesmente, a generosidade da natureza. Personagens ganham corpo com folhas de bananeira e objetos cotidianos. O shtoor (camelo), o asb (cavalo), o rooba (pássaro) e o booye saroom (filho do pastor) espalham-se pela areia brincando com todos em seu caminho. Apenas o Shushi, único personagem sobrenatural,  que, em sua dança, nunca se perde na multidão.

During the searing summer heat in Qeshm Island in the Persian Gulf, the village of Salakh is overcome by the celebrations of the annual Nowruz Sayadeen (the Fisherman’s New Year). On this day, all fishing – a symbol of the village’s livelihood – comes to a standstill out of respect to nature’s bounty. Amidst the celebrations, an array of characters push through the crowd, teasing and frightening anyone in their path. The only make-believe character, the Shushi, toys with the crowd the most. With the palm leaves brandished on each of his hands and the long woven reed hat on his head, the Shushi in his dance is never lost in the crowd. The other characters scattered on the sand include the shtoor (camel), the asb (horse), a rooba (bird), and the booye saroom (pastor’s son).

Plexus

Elena Helfrecht I Alemanha

Plexus emerge de afetos e traumas herdados ao longo de quatro gerações da linhagem feminina de uma família, explorando tópicos relativos à pós-memória, saúde mental e guerras. É um estudo de caso que busca, figurativamente, explorar recorrências, lacunas e repetições. Após a morte de sua avó, Helfrecht volta para a propriedade da família na Baviera tomando esse ambiente como palco e protagonista de uma peça alegórica. Retoma as imagens em “still life” num domínio imaginário e, permeando passado e presente, dá corpo a uma investigação que, ultrapassando as fronteiras pessoais e geográficas, explora o papel protagonista da família nos processos psicológicos e culturais ao longo da história.

Plexus is a photographic case study based on still lifes that emerge from inherited trauma and postmemory, exploring the family as an essential contributor to psychological and cultural processes across history. Helfrecht following her grandmother’s death returns to the family state in Bavaria and uses the house and its archive as stage and protagonists for an allegoric play. In the process of reconnecting the fragmentary history of her female lineage, the term ‘remembering’ becomes literal. Immersing herself in this story, she fills the gaps with dreams, associations, and imagined scenes to create a narrative transgressing personal and national boundaries. The objects and architecture of the house become parabolic proxies and open a gate between the past and the present. Permeating the imagery is a figurative search for apparent recurrences in history, echoing her own repetition of her mother and grandmother’s behaviors. By confronting a past spanning four generations, a renewed sense of identity provides ground for a detailed investigation of postmemory, mental health, war, and history.